
Educador
comenta episódio em que professora puniu adolescente pichador
Professor e pai de seis filhos, Régis Gonzaga propõe
um novo olhar sobre a paternidade
O episódio em que a professora Maria Denise Bandeira fez
um aluno retocar a pintura de nove salas de aula como punição
por ter pichado o apelido em uma delas, revelado por ZH e zerohora.com,
foi tema ontem do programa Polêmica, na Rádio Gaúcha.
Embora tenha despertado críticas dos pais do adolescente
de 14 anos, a professora da Escola Estadual de Ensino Médio
Barão de Lucena recebeu o apoio de 97% dos 2.278 participantes
de enquete do programa.
Professor e pai de seis filhos, Régis
Gonzaga foi um dos convidados a debater a questão no Polêmica
e fez um contundente manifesto a favor da paternidade responsável.
ZH publica a opinião do educador
abaixo:
A professora Maria Denise, que nada tem
do que se envergonhar, declarou ter agido com raiva no episódio
da pichação da escola em que trabalha, em Viamão.
Essa mesma raiva tem de tomar conta de todos nós. Chega
de passar a mão por cima de tudo. Chega de morar em uma
cidade imunda, suja, em que todos os prédios estão
pichados, e ninguém faz absolutamente nada. Está
na hora de dar um basta, mas não o basta da professora
tão somente, um basta de toda a sociedade.

Espero que essa pichação
signifique a retomada de um novo debate. Que tipo de sociedade
nós queremos para os nossos filhos? Que tipo de sociedade
nós estamos deixando para os nossos netos? O nosso papel
como educadores é dizer: “olha, chegou. Vai haver
repercussão, algumas pessoas são contra.”
Houve quem dissesse que a atitude da professora não educa.
Essas pessoas deveriam conviver com jovens, como nós fazemos
diariamente, e ver como alguns adolescentes que agem corretamente
se queixam. Alguém tem de dar limites, alguém tem
de dizer chega.
Estes jovens estão pedindo: “olhem pra mim”
Nós vivemos em um mundo em que há
um animal em extinção, e não poderia. O adulto.
Há pais que agem como colegas de seus filhos. Estou cansado
de ir a festas em que os pais compram vodca com energético
para os filhos de 12, 13 anos. Cansado de ver pais reclamarem
do professor do filho porque ele aplicou uma prova um pouquinho
mais difícil. Hoje, os bons alunos, mesmo os com uma estrutura
familiar razoável, têm vergonha de dizer que estudam.
Quantas e quantas vezes eu presenciei o diálogo entre dois
meninos:
– E aí, Fulano. Estudou para
a prova?
– Não, não estudei.
– Pô, mas eu liguei para a
tua casa, a tua mãe disse que tu estava estudando.
– Não, não, estava
vendo o jogo. Estava enganando a velha.
Vergonha de dizer que tinha estudado, porque
é feio estudar. Que valores são esses? Está
na hora da sociedade toda se dar conta de que nós estamos
indo para a tragédia. E há tragédia em todos
os setores. Vivemos em um país em que os senadores mentem,
os deputados mentem, os vereadores mentem, e nada acontece. Que
mensagem nós passamos para essa gurizada? A mentira é
uma boa.
Aos pais do garoto que escreveu o apelido
na parede da escola, quero dizer que a punição faz
parte do aprendizado, e que eles não precisam ficar chateados.
Se não houver punição, sai da escola, vai
para o telefone público, vai para os prédios históricos,
vai para os monumentos. E a cidade, que poderia ser bonita, paga
a conta em razão de pichadores. Esses jovens estão
pedindo desesperadamente: “olhem para mim! Por favor, me
estabeleçam limites.” É por aí que
nós podemos começar. Faz parte de ser jovem cometer
deslizes, cometer erros. Mas cabe aos mais velhos corrigir para
que eles não se repitam.
A gurizada quer ser do bem, falta oportunidade
Para não dizer que só falei
mal da gurizada, é importante ressaltar que os responsáveis
por esse tipo de incidente correspondem a uma parcela muito pequena
da juventude. Faltam nas comunidades mais atividades que levem
o jovem para o bem. A Fundação Thiago Gonzaga tem
mais de 10 mil inscritos em Porto Alegre. O que isso quer dizer?
Que a gurizada quer ser do bem, está faltando oportunidade.
Para o mal, em cada esquina, há seis chances.
O que as escolas podem fazer é criar
atividades voltadas ao voluntariado, à ecologia, a tentar
construir um mundo melhor. A grande maioria, tenho certeza, está
disposta a participar.
Fonte: Jornal Zero Hora edição de 25 de setembro
de 2009.
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Geral&newsID=a2665071.xml
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